Cruella

Cruella ★★★½

Desafiar a tradição, fugir do conservadorismo narrativo e impor atitudes que fogem do próprio cânone não são características tão atenuantes do digital-século-XXI estúdio Disney. Mas o primeiro passo para assimilar em si mesmo a informação de que fidelidade não deve ser levada em consideração em uma adaptação cinematográfica (adaptando a si mesmo), foi dado com méritos irrefutáveis. E coube à Cruella esse espaço.

Cruella DeVille é uma personagem com nova interpretação no live-action dirigido por Craig Gillespie (Eu, Tonya): criatividade. Adjetivo fundamental da história do Estúdio Disney de animação, pois, em 1961, na época do lançamento de 101 Dálmatas, estava sendo iniciada a construção do primeiro parque temático do conglomerado. Para isso, a ideia era reduzir custos nas produções dos filmes; veio então, a técnica de passar o desenho feito à mão direto na célula do filme, sem a necessidade de desenho quadro-a-quadro. Economiza-se dinheiro e tempo.

A figura de Cruella, seja na animação ou no live-action de 1991, era representada pela ambição vilanesca comum; o poder e obsessão, debaixo do casaco de pele grandioso sobre os ombros da atriz Glenn Close. Mas ainda assim, faltava dar significado à perversão e ao título de vilã. Pegando a máquina do tempo novamente, voltamos para os anos 60, dessa vez, em Londres, cidade onde se passa Cruella.

Na minha cabeça, em alguns momentos assistindo-o, veio outro filme: Blow-Up: Depois daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni. Um fotógrafo de moda está na ebulição da swinging london, um movimento cultural e estilista do meio da década de 60; costumes, vestes e regras sociais eram desafiados pela classe média-alta da capital britânica. O pós-guerra com certeza foi um evento que mudou em todas as questões do mundo e, durante um tempo, Londres foi o foco da moda moderna.

Por esse ponto, eu acredito que a escolha da cidade tenha sido tomada para tornar Cruella a efervescência da ruptura clássica: na moda, no comportamento, no cinema de fantasia. Desde garota, o senso juvenil anárquico estava estampado nas jaquetas personalizadas com rasgos e riscos, nos bottoms anárquicos… no cabelo dividido em preto e branco.

Adulta, agora interpretada por Emma Stone, ela se esvai dessa identidade e assume… muitas, ao mesmo tempo. Após um terrível evento de sua vida, ela é acolhida por dois meninos órfãos e os três se tornam ladrões e trambiqueiros: a figura boêmia e gatuna da imponente e rica Londres. Mas a veia estilística e artística de Estella (ainda) quer mais, pois é uma característica intrínseca que não consegue sumir.

A Baronesa (Emma Thompson) é o símbolo da moda do país. Quase a própria Rainha, ou se não, mais influente. Quando a protagonista chama a atenção , é contratada para criar os figurinos da Baronesa. A partir desse ponto, as semelhanças narrativas com “O Diabo Veste Prada” inevitavelmente aparecem, mas não desviam totalmente o foco na relação de ambas e, principalmente, como o brilho e a genialidade da mais nova aflora na mais velha (o contraste do tradicional com o moderno). E também não se sustenta por muito tempo, até sabermos que a relação entre as duas se ligará por uma informação muito mais relevante. É depois do desfecho do primeiro ato, que Cruella é apresentada.

E em Cruella nesse cenário, que o filme aproveita desse sentimento desigual entre ambas, para extravasar: nos looks que contestam a vigência da elegância, nas intervenções públicas que escancaram o medo da opinião pública e da imprensa… no medo do futuro, simbolizado pela figura da protagonista.

Emma Stone sintetiza esse pavio longo, atenuando suas fragilidades momentâneas pelo passado mal-esclarecido, mas que em algum momento, irá explodir e levar com ele, a certeza de que o figurino e a moda em Cruella são as principais veias narrativas do filme. As vestimentas punks nos becos, o requinte remodelado que dá vazão ao discurso vingativo que é assumido pela estilista.

Os tropos cômicos às vezes perdem espaço na mirabolância e soluções forçadas, mas que ao mesmo tempo que não tiram a autonomia de suas cenas, também não imprimem peso na montagem: o filme é fluído e segue de forma segura sua história. Novamente, é a sensação de que o cânone da Era de Prata da Disney não é aplicável nessa história; de que a ausência do característico casaco de pele (apesar de pequenos acenos do filme com o delírio da roupa feita de dálmatas) é tanto um respeito à história, quanto uma nova roupagem.

É apontar levemente a desigualdade social e ao preconceito classista - clássicos britânicos na história do país -, à linha do tempo que é contada pela moda e por suas motivações. Cruella é um desafio.