Ma Rainey's Black Bottom

Ma Rainey's Black Bottom ★★

Um dos queridinhos da crítica neste ano, 'Ma Rainey’s Black Bottom (2020)' acaba se afundando na própria direção e não alcança a superfície.

O prestígio do longa chega a ser um grande delírio. É como ver alguma pessoa que você conhece e sabe que a falta de talento deste dito cujo é gritante, mas por algum motivo ele está acima de você e de pessoas que você sabe que são melhores. E é óbvio que você irá se incomodar com esse fato, se você não se incomoda, você é uma máquina.

Porém, vou tentar o ser o mais breve possível em relação ao filme. Fica impossível de não usar analogias, porque é inexplicável entender o que acontece aqui.

- A direção beira ao medíocre. A inicialização deste projeto em si é péssima, não me vem a cabeça o que pensaram ao ler o roteiro. A adaptação de uma peça de teatro para o cinema requer muito cuidado, porque sabemos o quanto a sustentação de um filme é frágil quando se trata de um projeto que funciona ao vivo para uma plateia. Wolfe parece perdido em sua própria filmagem, a edição do filme atrapalha o desenvolvimento do roteiro em diversas vezes e o mais bizarro é que aparenta que a edição e o roteiro parecem brigar para ver quem atrapalha mais.

Os enquadramentos e as movimentações são preguiçosas, só servem para deixarem mais evidente que trata-se de um filme adaptado do teatro. Tem momentos em que se torna um desafio de enxergar as cenas do filme com seriedade, ainda mais com a confusão do diretor ao aplicar o roteiro em cena. Ele não sabe fazer a dosagem entre comédia e drama (com direito à figurante gago) e isso se torna uma problemática na maioria das cenas de Boseman, onde seu personagem sofre com insanidade - fruto de um trauma na infância e dentro da sua interpretação caricata e estereotipada se torna algo jogado e passa batido na história. A direção se mostra falha no momento exato em que Leeve conta a trágica história de seu pai e ao invés de despertar alguma emoção por parte do ator, essa emoção só acaba surgindo no corte do pianista que o observa em silêncio com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Foi uma das únicas cenas em que senti a naturalidade dentro do filme.

- O roteiro é raso. É realmente um dos pontos que evidenciam a teatralidade da peça no filme. O elenco parece estar dentro do teatro, parecem estar numa disputa de quem tenta mais, principalmente a banda. As cenas da banda se tornam mais recorrentes que as cenas de Ma Rainey (Viola Davis) e em suas sequências longas e monótonos, é difícil de se conseguir extrair algo além de pura futilidade e artificialismo. A única sequência em que o roteiro acerta mas ainda erra, é a discussão religiosa de Leeve com um dos integrantes da banda onde uma briga cômica tira a seriedade da cena. E não é uma das únicas cenas em que isso acontece. O roteiro tem uma discussão divertida onde Ma Rainey exige tomar Coca-Cola antes de iniciar a sessão das músicas. Isso mesmo, Coca-Cola. No entanto, existe um diálogo entre Ma Rainey e um dos integrantes da banda, enquanto esperam por suas "Coca-colas" e o diálogo é sobre a relação de Ma Rainey com a música e o quanto isso une as pessoas, principalmente se tratando da questão racial onde poder da artista era tão grande que atingiu à todas as massas. Enquanto essa diálogo acontecia, aconteceu um corte ridículo de sexo entre Leeve e a companheira de Ma. O longa já parece vazio e quando tenta ter algo SÉRIO a dizer, o próprio filme decide calar Viola Davis para dar espaço à Chadwick Boseman.

Por mais seja perceptível o favorecimento a Boseman, Davis não escapa do caricatismo e entrega uma interpretação preguiçosa e que está longe de ser uma homenagem a Ma Rainey. A atriz fica com a cara emburrada o filme todo e quando finalmente o filme decide acabar com os monólogos insuportáveis da banda e por a atriz em cena, no momento em que Viola abre a boca para cantar, é pura dublagem de péssimo gosto - a voz da atriz e da cantora não se cruzam, só aumentando o tamanho da grande bola de neve que o assombra o longa.

Quando finalmente a proposta do roteiro que se resume em 'qual versão de 'Ma Rainey's Black Bottom' a banda deve tocar', após o sobrinho gago de Ma Rainey errar a introdução da gravação por inúmeras vezes, o personagem de Boseman atrapalhou as gravações e nenhuma música foi gravada durante aquela sessão. E lá vamos nós, mais 15 minutos da banda dentro de um quartinho para que Chadwick possa ter mais tempo de tela. Durante esse tempo, acontece o diálogo de Leeve sobre a existência de Deus, é um dos únicos acertos do roteiro até que de repente acontece uma briga de chutes, pontapés e ainda rola um risca faca digno de Zorra Total, isto tirou toda a seriedade da cena.

Quando finalmente o elenco volta ao estúdio e termina o trabalho, Leeve se demite e Ma Rainey vai embora. O filme aposta em um dos desfechos mais fedidos que já vi, Leeve e o pianista discutem por algo super importante. E é aí que Leeve se torna um assassino. E a justificativa: um trauma de infância que mal foi desenvolvido e um par de sapatos feios. No momento em que se espera ao menos um suspiro de Ma Rainey sobre o fim de tudo, Viola termina o filme como começou: emburrada e calada. O filme se encerra com uma clara crítica, onde os brancos roubam o espaço dos negros cantando soul e blues. Uma crítica que teve zero impacto devido o grande silêncio ao redor de Ma Rainey's Black Bottom.

'Ma Rainey’s Black Bottom (2020)' tem 1h30 e é tão cansativo que parece 2h30. E o único momento em que consegue te despertar um arrepio é quando o nome de Chadwick Boseman é homenageado nos créditos. Se a intenção do filme era ser um tributo a trajetória de Ma Rainey, falhou miseravelmente a ponto de silenciar a cantora com uma interpretação sem destaque algum para Davis.

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