Emicida: AmarElo - It's All for Yesterday ★★★★★

Assistir Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem foi uma experiência de muito choro, e vou contar minha parte nisto, talvez equiparado somente por uma trip nostálgica e de muito valor histórico que foi assistir O Pequeno Príncipe de 2015.
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Acho que nunca em vida esse formato de mídia me atingiu tão em cheio emocionalmente quanto esse, e por motivos mil, e eu preciso botar eles pra fora, porque acima de tudo quero me ver assim de fora mudado depois de tal experiência.
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Minha experiência com o AmarElo começa pela audição do álbum, ao qual minha ex-namorada e alguns dos meus mais valorosos amigos já exaltavam como uma obra prima e como quaisquer pessoas que mudam seus dias a partir de um fenômeno fizeram questão de sedimentar o carinho a mim tentando ativamente me expor a tal.
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Enfim escutei motivado por um comentário ácido e ao mesmo tempo quase absurdo envolvendo o Emicida e a qualidade dos Pokémons encontrados na “quebrada”.
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A necessidade de contexto que me levou a tanto delay é necessária.
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Sai do maior projeto da minha vida no início de 2019, uma banda a qual nutria expectativas sobre-humanas de salvação, uma afronta a toda mediocridade que o medo me imergia.
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Tal ruptura trouxe um desgaste interno e interpessoal gigantes.
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Me vi num lugar super desconfortável de enfrentamento a falta de coragem necessária pra dar qualquer passo em direção a um assertamento.
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O poder da associação não me deixou viver impune. E assim passei de um ávido pesquisador musical a um taquicardico ansioso.
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Não conseguia e não queria consumir novos materiais, dentro de um processo longo de aproximações tronchas com a música encontrei uma paixão dilacerante no cinema, que reafirmava de maneira super esperançosa a minha paixão pela expressão humana tanto quanto mostrava a minha nova aproximação a uma arte menos disforme, pois ver o ser humano em tela é muitas vezes mais potente que sentir que uma sucessão de acordes contempla toda sua riqueza interior.
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Passei então a escutar de maneira mais ativa músicas, que quando não nostálgicas e confortáveis de revisitar, as que se comunicassem a nível estético com essa nova fórmula refinada pelos filmes, uma estética que trabalhava em função da humanidade, me encontrando enfim de olhos mais abertos a estética e ao poder de suas ferramentas.
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Nessa por exemplo descubro Milton Nascimento como o rei do meu mundinho, mas enfim...
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AmarElo vem então num momento de ainda desconforto de ouvir coisas novas e absorvê-las de maneira mais espontânea. Alguma amiga me disse que leu que a partir dos 25 anos as pessoas tendem a ter dificuldade justamente nesse processo, nem sei se é isso mesmo e tô de boa, eu preciso entender esse meu novo momento e não o combater com negação.
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Consumo assim o AmarElo como quem busca entender o valor de todas aquelas decisões, uma maneira crítica que me convém bastante e que tem me sensibilizado ainda mais a importância de um coletivo e de um recorte no tempo pra que algo aconteça da maneira que só ela poderia acontecer.
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Apesar de AmarElo não me instigar a repetidas audições a nível musical, me deixa feliz de algo assim estar em foco, com toda força vocal que tem, com tanta qualidade de construção e com tanto potencial pra ser ator ativo de muita mudança.
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Me toca especialmente pela ecleticidade que o Emicida propõe que une elementos historicamente afastados, mas que se encontram da maneira mais natural possível, pois compartilham muito mais que qualquer célula rítmica uma história e um projeto em comum. E dentro disso existe toda qualidade dos músicos, produtores e do diretor musical em fazer com que esses contrastes históricos não sejam questão de supra destaque, encontrando uma acessibilidade importantíssima.
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Unir rap, samba, poesia falada, trap, MPB, reggaeton, rock, jazz e pregação com tanta qualidade e naturalidade dentro de um contexto onde a maioria está em cisão é um sopro de esperança de que é possível.
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Eu como branco, cis, hétero e classe média me encontro muito distante de quem o discurso do disco de maneira objetiva aponta, mas desde quando isso é um fator exclusivo? Não existe maior ferramenta de inclusão que a escuta e assim a busca ativa da sensibilização junto ao próximo. E esse disco é primoroso também ao ser acessível em discurso a quem não vive as mazelas ali expostas.
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Já que não posso assumir a postura de quem possa mais se identificar com o discurso falo aqui do meu posto e buscando dar o maior suporte e visibilidade possível a esse tipo de obra junto aos meus iguais.
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Mas admito que numa primeira audição fiquei desconfortável junto a algumas escolhas estéticas, como a falta de instrumentais tão agressivos quanto algumas letras ali. Mas enfim entendi que a raiva junto a sobriedade é mais forte que envolta em ódio. O entendimento de que a mensagem proposta no disco não deve encontrar barreiras de enfrentamento com quem mais precisa ser alcançado por ele é compreensível e sinceramente deve ser apoiada.
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Estéticas agressivas muitas das vezes em uma sociedade imersa na desesperança afastam as pessoas de uma mensagem que tem tanto poder modificador. Ser acessível é regra pra algo que busca ser tão grande, e que tem todo o direito de deixar alguma humildade de lado em função disso.
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Parte desses entendimentos foram maturados após pensar no que havia escutado, mas definitivamente encontraram respaldo nesse documentário. E se você ainda não entendeu o porquê de tanto choro, é porque você ainda não assistiu ao documentário ao ler esse texto.
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Como filme me passa como impecável a montagem, que cria o entendimento de ação e consequência, ao mesmo tempo que tão histórico quanto o é se mostra sensível e sensitivo, tornando a luta, gratidão e conquista em sentimentos viscerais de força, revolta e conforto, não limitada a vícios históricos de associar essas questões a expressões insufladas e raivosas, que aqui também são exaltados por seu valor, mas que não se tornam limitantes no escopo imenso da vida de todos os envolvidos, que no fim é todo mundo mesmo.
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A quantidade de nomes em tela consegue virar algo instigante onde facilmente seriam desgaste. Nomes imersos em uma estética aquarelada imponente e entre inserções documentais que contrastam com cenas pequenas de carinho e do cuidar de uma horta criam uma imagem que é muito grande e muito pequena, e isso é mais humano que qualquer coisa.
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Esse filme me mostra que é possível ter um projeto grande, expansivo, pretensioso, consciente, didático e acessível, e ter sucesso ao constatar junto a isto seu chão e seu céu. A gratidão que perpassa essa obra é de ficar constantemente abalado enquanto assiste, de tão exuberante e imponente que é a carga histórica que traz todos até onde a gente está e até aonde a gente pode chegar.
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Esse filme me traz esperança e coragem como músico, dentista, ser humano e ser social. E nesses tempos isso é o mais importante de tudo. Obrigado, equipe do AmarElo.