Ma Rainey's Black Bottom

Ma Rainey's Black Bottom ★★★★

"They don’t care nothing about me. All they want is my voice."

Ma Rainey's Black Bottom é o lançamento da Netflix dirigido por George C. Wolfe, com roteiro de Ruben Santiago, adaptado da obra de mesmo nome, escrita por August Wilson. O filme que conta com Denzel Washington na produção mostra um dia da história da Mãe do Blues: Ma Rainey.

A narrativa gira em torno de Ma (Viola Davis) que após seu sucesso como cantora de Blues no sul dos Estados Unidos, vai para o norte gravar e distribuir sua música da maneira como já fazia (sonoramente), e Levee (Chadwick Boseman) em contraponto, com grandes ambições para atingir mais gente com a música, acreditando em seu talento e ouvindo as mudanças de estilo que aconteciam na época.

Alguns pontos inicialmente merecem destaque, o design de produção é incrível em retratar os anos 20, os figurinos são impecáveis e todos os detalhes das roupas, do caimento para horas no palco (mesmo com a gravação curta) ao uso das cores, foram precisamente escolhidos. A fotografia também tem um bom trabalho, mostrando o céu sempre branco com o Sol forte para retratar o calor dentro do estúdio, as sombras também são muito bem trabalhadas principalmente nas cenas de tensão nas gravações.

O maior destaque, porém, é para a atuação que provavelmente terá destaque nas premiações que estão por vir. Viola Davis é definitivamente uma das maiores atrizes que temos, e como era de se esperar não entrega nada menos que outra uma atuação brilhante. Ma é uma mulher negra vivendo nos anos 20 dos Estados Unidos em plena segregação racial, e Viola a interpreta com a força necessária para se impor neste cenário, a mudança corporal e a maquiagem também são fundamentais para o enrequecimento da personagem, mas os detalhes servem como suplemente de algo que já é gigante por si só. Chadwick por sua vez brilha com monólogos fortes, Levee representa no filme a vontade de conseguir crescer e viver do próprio talento e esforço, simbolizando o povo afro estadunidense, que apesar da força e determinação é tragicamente impedido por diversos impasses.

Apesar dos pontos positivos, as interpretações roubam tanto a atenção que algumas cenas parecem servir com o propósito exclusivo de demonstrar a genialidade dos atores, onde a atuação em si parece mais importante que o texto. Isso de maneira nenhuma é um ponto negativo para qualquer um dos atores, o ponto de crítica aqui fica para a montagem. O filme que é originado de uma peça conta com cenas um pouco mais teatrais, porém com uma montagem repleta de cortes desnecessários, reforçando apenas estes pontos de atuação específicos, fazem com que a intenção fique confusa.

Outro ponto grandioso agora, é como uma parte da história do povo afro estadunidense é contada através dos personagens principais. Ma, sendo a mulher que se impõe e conquistou seu respeito no sul com a união da própria comunidade que apoia sua arte, porém no norte -onde teoricamente haveria mais espaço- homens brancos querem ditar como prosseguir. E Levee o homem que tem o seu talento escancarado, porém é podado e explorado pelos mesmos homens que controlam as gravadoras. Aqui vemos a história do Blues, um gêreno musical de origem preta que foi apropriado e tirado das mãos de quem o criou. 


O desfecho deixa ainda mais claro o modus operandi de controle da gravadoras brancas, Levee fala sobre como ouvir e aprender a esperar sua hora -que aprendeu como fazer isso tragicamente- porém numa situação de poder o esmagamento se torna insustentável, e o que vemos não é a resposta contra a gravadora mas a rivalidade entre os próprios artistas, visto que a estrutura capitalista é feita justamente com este propósito. A analogia da porta deixa imageticamente mais claro a tragetória que é representada por Levee: uma vida de espera para ter sua oportunidade, e quando -com força- foi possível abrí-la, o impedimento ainda é maior. As representações são claras e pesadas, e tentei escrever o que me pareceu assistindo ao filme, porém, gostaria de saber mais sobre as questões raciais vindo de alguém com mais conhecimento para falar. Neste assunto não tenho a propriedade necessária, e acredito que devo me manter em temas que domino.

Por fim, Ma Rainey's Black Bottom conta ao mesmo tempo uma parte da história afro estadunidense, a história do Blues, e da mãe do gênero. Gigante em diversas camadas. Um belíssimo último trabalho de Chadwick.

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