La Notte

La Notte ★★★★★

Interessante assistir La Notte logo depois do De Olhos Bem Fechados (talvez fosse ainda mais interessante o contrário...) porque conversam muito do início ao fim.

No filme de Antonioni a realidade previsível já está desalinhada, os corpos vagam pelos espaços em busca do despertar de pulsões adormecidas, bem na linha do personagem de Cruise no filme do Kubrick, contudo, jamais conseguem ressignificá-la propriamente – a vontade perdura, não a noção de tal vontade e nem sua devida consumação.

Imergem nas paisagens à busca de algo indeterminado, percorrendo lentamente a extensão dos espaços, deparando-se volta e meia com focos de atenção, ruídos urbanos e expressões alheias de existência que de algum modo assimilam o estado de dispersão vindo de dúvidas internas.

É fascinante como desorganiza e reorganiza os elementos ao longo dessa extensão, seja por atingir tal compreensão ou se desiludir de vez, mantendo o perfeito senso de ordem entre as coisas. Nada foge de Antonioni. Dá tempo no plano e espaço no enquadramento pra que o corpo desempenhe sua respectiva busca, crie contato com as áreas circundantes, se fixe ou desgaste, mas o controle nunca lhe escapa.

Apesar do espaço dado vir de uma dúvida interna, uma curiosidade e um desencanto existencial, a desordem superficial nunca lhe atinge, pois sabe os limites da duração e do perímetro.