Pierrot le Fou

Pierrot le Fou ★★★★★

Já dizia Jean Luc Godard: "para se fazer um filme, tudo o que você precisa é de uma arma e de uma garota". Pus-me a refletir a respeito de tal afirmação, e percebi como os dois elementos que a compõem (arma e garota) funcionam quase como antônimos se os analisarmos de forma mais precisa. Estes são, respectivamente, os incitadores da violência e do amor, símbolos da hostilidade e da afabilidade.

Mas embora sejam objetos tão distantes um do outro, na prática, no cinema, não poderiam formar dupla mais dinâmica. Tomemos por exemplos os clássicos Hollywoodianos que Godard tanto amava, seja Scarface de Hawks ou To be or not to be de Lubistch. Lá estavam presentes armas e mulheres, perigos e paixões, e estes movimentavam a trama e excitavam o espectador como nenhum outros fatores poderiam fazê-lo.

Godard, conheço esta fórmula muito bem, explorou-a e a elevou ao infinito em seus filmes, de À bout de souffle até Carmem. Arma e garota são tão inseparáveis em sua obra quanto cinema e o próprio Godard. Mas creio que é certo afirmar que esta chegou ao seu ápice em Pierrot le fou.

Primeiramente, é mister compreendermos que este conceito só funciona devido sua dualidade. É justamente o contraste entre o violento e o apaziguador que torna-o tão interessante. A montanha russa de sentimentos, o embate eterno entre o mundo real e o utópico sentimento de amar.


Entendendo isto, o ato de compreender o porquê de eu acreditar que Godard elevou ao infinito esta fórmula é em muito facilitado. Digo isto, porque o diretor consegue estender esta dualidade e conflitos cinematográficos para muito além do arma X garota.

A fórmula, está sim presente em Pierrot le fou. Há tráfico de armas e há Anna Karina. Mas há também dualidade política, filosófica. Consumismo X Liberdade, Amor X liberdade. A comicidade de Belmondo que entra em contraste com a trágica vida que vive. A estrutura narrativa e arquétipos clássicos em um belíssimo embate com o experimentalismo de Godard. Mas nisso, nada destoa, nada soa fora do lugar. Não poderia nem dizer que é uma espécie de bagunça organizada porque o filme não o é.

Uma vigorosa rigidez permeia toda a obra, e mesmo em meio à tantos conceitos apresentados, há claramente uma unidade sempre presente. Qualquer outro diretor poderia facilmente perder-se em muito a todas ideias que o filme levanta, mas não Jean Luc Godard. Certo de que não deseja se perder em supérfluas e odiosas críticas políticas, o que o diretor executa é um ode à vida, às paixões e ao cinema.

Tudo o que pude fazer, como ínfimo espectador, foi deleitar-me ante toda a beleza satírica na sagacidade do diretor. Contemplar as belas imagens, e rir-me com as sacadinhas da obra.

Karina, Godard, Belmondo, Coutard, Duhamel. Tendo-os sempre à minha disposição, poderei certamente viver e morrer feliz.

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