Cruella

Cruella ★½

Um dia desses numa call com uns amigos eu tive um papo com eles sobre a perigosa e sútil tendência atual – que já vem de um tempo e só fica mais clara agora – dos blockbusters do cinema norte–americano que buscando fugir dos rótulos de “genéricos” e “todos iguais” entram num caminho de se auto–afirmar enquanto “olha pra mim eu sou arte” – como se um blockbusters não fosse arte o que é ridículo – ao invés de ser só um filme bom. Parece que hoje se vive uma tendência onde os filmes precisam gritar desesperadamente “OLHA PRA MIM EU NÃO SOU SÓ UM BLOCKBUSTER” ao invés de tentarem apenas serem filmes divertidos, criativos, imaginativos, bem feitos e que fujam do lugar comum não por se afirmarem assim, mas por serem assim de forma factual. Porque não só ser ao invés de se auto–afirmar, né? De forma que você vê isso na prática do filme e não no que ele grita desesperadamente para tentar encobrir o caminho raso de ser só um mais um entre tantos mesmo que queria disfarçar isso.

O resultado disso são filmes mais preocupados em o que eles vão parecer do que em de fato ser alguma coisa. A preocupação sempre é com as aparências e não com o filme. E aí existem dois caminhos dessa abordagem falsa e calculada: ou você é um blockbuster que assume uma seriedade e pompa artificial usando um senso comum do que uma parcela acredita que são “grandes filmes” para se auto–afirmar ao invés de construir e dizer algo com isso ou então você usa de mecanismos para parecer “livre, solto, alegre e criativo” – dentro do mesmo esquema de senso comum – numa roupagem de videoclipeira que também só serve como autoafirmação e não como construção de algo. O tal “filme sacadinha”.

Cruella” está nesse segundo grupo. Claramente é um “filme sacadinha”. O que é isso? Um filme que usa de vários truques e mecanismos que já são senso comum para parecer que está fazendo algo que não é mais do mesmo ao invés de fazer algo que de fato não mais do mesmo ou que seja só bom mesmo, sincero ou alguma coisa. O problema não é exatamente o fato de ser “um filme sacadinha” ou ter “sacadinhas”, isso se bem feito pode ser legal ou até maravilhoso, o problema é se resumir em ser só “um filme sacadinha” ao invés de se construir um filme.

Porque quando você olha de fato para esse filme lá no fundo, você só enxerga o raso de tudo que ele quer ser, você só enxerga um filme que só quer dizer “eu não sou mais um blockbuster” ao invés de criar e construir uma narrativa própria. Tudo nele é esquemático: desde a parte técnica com plano sequência que só serve para se mostrar e movimentos de câmera e planos abertos só para destacar o quão bonito é o cenário ao invés de propor algo, até as cenas divertidinhas com músicas pops que todo mundo ama, a câmera lenta e por aí vai, tudo parece que está lá só para o filme se mostrar e para preencher uma tabela ao invés de querer construir um desejo criativo ou um desejo de fazer um bom filme ou contar uma boa história.

O que sobra acaba sendo o pastiche que é essa versão da história de origem da Cruella De Vil, um amontoado de vários outros filmes, tendências e obras artísticas que nunca se mostram como algo além do lugar comum onde os momentos emocionais e de humor soam totalmente calculados e artificiais. Até o cinismo da personagem e do mundo a sua volta parece de mentira. Esse piloto automático total do “filme sacadinha” consome até Emma Stone e Emma Thompson que estão só no mais do mesmo em interpretações meio preguiçosas. O que eu consigo tirar de real da minha conexão vendo “Cruella” são os risos que eu dei o assistindo, só que nenhuma deles foi com o filme e do o filme queria que eu risse, mas dele mesmo de constrangimento, porque no final das contas a tentativa desesperada de “não ser só mais um blockbuster” acaba dando esse tipo de resultado desses frutos falsos.

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