The Boy Who Killed My Parents

The Boy Who Killed My Parents ★★★

Assisti com minha namorada no domingo e estarei fazendo comentários aqui não especificamente para "O Menino que Matou Meus Pais", mas para ambos os filmes, até porque não faz o menor sentido serem dois filmes separados (e talvez seja esse o grande problema do projeto).

Parece que o maior medo de muita gente (até mesmo sem ver o filme), era de que o filme por se basear nos depoimentos dos assassinos, fosse vitimizar eles, e é de certo modo sim o que acontece; a versão de Suzane a coloca como vitima de uma manipulação psicológica do namorado, e a versão de Daniel o coloca como vitima desta mesma manipulação só que por parte de Suzane. Discutir se tal proposta é problemática ou não, é saudável, mas acusar o filme de ser um possível manipulador com potencial a fazer o público sentir empatia pelo casal de assassinos é ignorância; se trata de um caso público, onde a maior parte de detalhes da investigação se encontra facilmente em vídeos jornalísticos de exibição nacional e sites públicos/jornalísticos de confiança. Acreditar que uma obra é capaz de mudar os fatos é imbecilidade, e acreditar que a obra não devesse ser feita por se tratar de um caso de assassinato real ao mesmo tempo que consome filmes de serial killers americanos, como aquele do Bundy de 2019 é mais imbecilidade ainda (devem perdoar porque o Efron é bonito rs)

A obra de Mauricio Eça se torna uma síntese das versões do crimes em um contexto social adolescente inicio dos anos 2000', é basicamente um Romeu e Julieta na grande São Paulo, um amor proibido que encontra no crime hediondo a liberdade pra se amar.

Adolescentes que se enxergam donos do mundo, presos em sua paixão alucinante e que perdem qualquer tipo de humanidade para se chegar onde querem. Não é um retrato minucioso de um crime que chocou o Brasil, é o retrato de uma geração adolescente 2000' que coloca seus desejos e suas vontades acima de qualquer moral e regra, não é uma vitimização da Suzane, caminha bem mais pra uma demonização dela; onde em "O Menino[...]" ela se vitimiza como frágil e manipulada, se colocando contra o namorado que supostamente amava para o incriminar, e em "A menina [...]" mostra sua face mimada que não mede esforços para usar quem está do seu lado da maneira mais revoltante para se alcançar tudo o que quer, ignorando qualquer ética e moral social para isso.

A maneira em como Mauricio faz isso é basicamente lidando com as aparências da imagem, coisas mínimas ou até mais escancaradas: em "O Menino" durante a cena em que os dois se conhecem, Daniel encara Suzane por um longo tempo (como um homem confiante, que mesmo sabendo que ela pertence a uma classe social diferente, sabe que vai a conquistar), enquanto em "A Menina", ela o encara de longe por um longo tempo (como uma águia espreitando sua caça). Na versão dela, a primeira cena de sexo é algo brutal em que ela está em posição de estar sendo desvirginada forçadamente, enquanto na dele é ela quem toma a iniciativa, ou até mesmo nas cenas das viagens, onde na versão dela, apenas Daniel experimenta roupas no shopping onde tudo é pago com o dinheiro dela e ele despreza a almofada que ela fez com o próprio rosto pra ele, e na versão dele, essa mesma cena mostra mais ela realizando compras para si, enquanto Daniel se sente feliz com o presente da almofada (que volta a aparecer no quarto do menino). É uma mudança da subjetividade das imagens, que prova que a verdade de uma mise en scene está em como ela é construida/montada, uma encarada, realizada em contextos diferentes e planos diferentes, muda totalmente a moral que essas personas transmitem.

Mas apesar de tudo, o filme se limita a essa formula de Romeu e Julieta criminal anos 2000' com uma estética típicas de filme adolescentes americanos, que, impede a obra de ser algo maior, algo único, é bem mais um exercício sobre o poder das aparências da mise en scene e sua montagem do que uma história e uma estética adaptada de fato ao local onde o crime aconteceu, o cenário brasileiro. Não deixa de ser de um filme decente e até surpreendente, mas acaba sendo mais do mesmo em muitos fatores. O fato do filme ser divido em duas partes também não ajuda como comentei no primeiro parágrafo; é óbvio que é um filme que foca nessa construção da subjetividade do ponto de vista em versões diferentes da mesma história, mas não há necessidade de se fazer dois filmes onde se utilizam basicamente a mesmas filmagens, não sei se foi por questões de retorno financeiro ou Eça realmente viu mais propósito em separar as versões do que as juntar em um mesmo filme, mas de qualquer modo não soou uma escolha inteligente. Não é nenhum marco, nada memorável ou absurdo no cinema nacional, mas dá pro gasto.