Inside Out

Inside Out ★★★★★

Imagine-se com 17 anos. Segundo ano do ensino médio. Deprimido, você se sente abandonado pelo mundo, sente como se ninguém de fato o enxerga-se. Você anda pelos corredores da escola na qual estudou a vida inteira, passa pelos colegas que conhece desde a infância, e dá-se conta que todo este tempo você não foi capaz de construir uma única relação significativa com essas pessoas, com esse lugar. Eles são estranhos pra você. Você não tem amigos. Eles passam por você, rindo, e é como se estivessem rindo de você. A hora do recreio, a mais aguardada pelos alunos, era seu maior pesadelo, se sentia preso em seu próprio Show de Truman, onde você é a única pessoa infeliz em um mar de confraternização e alegrias, e de repente todos os olhos se voltam contra você, julgam-no por sua infelicidade, sua inaptidão social, sua crise depressiva cada vez mais profunda. Você não tem amigos.

Imagine-se com 17 anos. Deprimido, infeliz, sem amigos, você acaba de sair de mais um de seus dias particularmente difíceis na escola (que tem se tornado tão comuns que você se pergunta se este particular já não se tornou o novo normal). Você vai no cinema esperando escapar da palpitação desesperadora que ataca seu peito - vai ver Divertida Mente. É o novo filme da Pixar. Você ouviu coisas boas sobre ele, mas tenta não criar muita expectativas - você sabe que a Pixar nunca mais foi a mesma depois de Carros 2 mesmo. Você se senta na poltrona, as luzes se apagam, o filme começa. 

Nada poderá te preparar para a experiência que terá a partir daí.

Não é apenas o fato do filme ser bom; ele é - muito bom. É criativo, engraçado, tocante, os personagens são carismáticos, o universo que o filme cria tão único e cheio de particularidades e ainda assim o mesmo consegue passá-lo para nós de forma impressionantemente natural - simplesmente parece com os filmes da Pixar da sua infância. Mas não só isso. É também o exato filme que você precisava assistir naquele momento. A forma com que ele trata sobre maturidade emocional, de forma sensível, inteligente e ainda acessível, fundamentalmente sobre como está tudo bem se sentir triste, como a tristeza uma parte natural do crescimento, como expressar nossos sentimentos negativos é uma ponte para a comunicação tanto quanto expressar positividade o tempo todo, como ninguém deve se sentir obrigado a estar feliz o tempo todo. Tudo isso eram coisas que o meu eu de 17 anos, infeliz e sem amigos, precisava ouvir. E o fato de ser um filme da Pixar a me dizer tudo isso, a Pixar, estúdio que definiu a minha infância, iniciou seu amor pelo cinema, e vinha em um declínio criativo desde então, fez de tudo ainda mais pessoal. É como se ela tivesse resolvido dar uma pausa no show de mediocridade no qual se encontrava (e ainda se encontra) por minha causa, reservar sua última obra-prima para mim. Assistir esse filme foi como se todas as minhas memórias de infância tivessem se materializado em minha frente e vindo ao meu resgate - me abraçado e dito que tudo ficaria bem.

Eu sei que isto é muito menos uma crítica do que apenas um relato sobre meus sentimentos durante aquela época e em relação ao filme, mas, Divertida Mente é um filme que eu jamais conseguirei falar sobre dissociado da experiência de assisti-lo pela primeira vez. Cinco anos depois, eu consigo enxergar seus defeitos mais claramente (ainda segue a mesma fórmula mecânica da maioria dos filmes da Pixar e, visualmente, não é tão inspirado quanto as melhores animações já feitas), mas eles sempre serão ofuscados por aquela mágica e transcendental primeira vez que eu assisti, deprimido e com 17 anos. E, honestamente, não é isso o que importa? Não é esse o objetivo final da arte, arrancar alguma reação emocional de nós? Assistir Divertida Mente com 17 anos foi a experiência mais pessoal que já tive com um filme, foi como se um raio tivesse me atingido, as estrelas se alinhado, para que eu cruzasse com este filme no momento certo da minha vida, no momento que mais precisei dele.

Agora eu tenho vinte e dois anos. Já não frequento mais aquela escola, já não convivo mais com aquelas pessoas, mas os sentimentos ainda são os mesmos. Sentimento de covardia por não ter corrido atrás do que realmente queria e me acomodar em uma área que não me interesso, sentimento de fracasso por ter vinte e dois anos e depender totalmente da minha mãe para tomar conta de mim, sentimento de vergonha por nunca ter tido nenhuma experiência romântica ou sexual, nunca ter vivido um amor. Até tenho amigos, mas me sinto cada vez mais alheio a eles. Mas eu ainda tenho esse filme no qual me agarrar nos meus piores dias - e vendo como Riley primeiro precisa ter seu interior destruído para se refazer, talvez eu precise do mesmo.

Enquanto eu continuar sentindo, nada está perdido, certo?

Miguel liked these reviews