Behave

Behave ★★★★

Eu teria tanta coisa pra falar sobre esse documentário, que eu não sei muito por onde começar.
Aqui, nós temos a representação de jovens marcados pela violência e o crime. Nesse documentário, os reais julgados não podem ser mostrados por serem menores de idade, e a documentarista os substitui por jovens da favela não envolvidos nos crimes. É interessante como essa troca passa uma mensagem interessante pra quem assiste e pra quem observa todos aqueles corpos negros nas unidades de internação: parece que não importa muito o nome ou a pessoa, mas a inserção dela em uma comunidade muito pobre, modelada pelo tráfico, desassistida pela sociedade e tratada com desdém pelo governo, sem acesso ao básico de educação e saúde. É como se esses jovens não tivessem uma representação pessoal, mas a representação coletiva basta para que entendamos que estamos vendo o resultado de um processo de total desassistência para a população negra e pobre das comunidades de favela.

Nos deparamos aqui com casos de jovens sendo inseridos no tráfico de drogas, praticando delitos de furtos e roubos e até assassinato e vamos aos poucos descobrindo sobre esses personagens. Um deles matou o pai a facadas onde a justificativa se deu no espancamento que o pai produzia em casa, com o próprio e com a mãe, da própria voz dele ouvir falar que ele "precisava de carinho" ou ainda, as meninas relaram "roubei porque meu filho estava com fome" expondo uma dupla fragilidade: a desassistência social e de saúde, já que a grande maioria desses jovens relaram já ter filhos. Há aqui um dado importante também, que por N motivos, muitos desses jovens não frequentam a escola, não tem acesso a quaisquer outros meios de profissionalização.
E em meio a todos esses casos, conhecemos a casa de internação que nada é de "ressocializadora" como a juíza das causas gosta de falar o tempo todo. Aqui, a arquitetura do ambiente faz sua parte, bem como já tinha feito lá no juizado de menores: paredes escuras e sujas, corredores vastos e mal iluminados, a tristeza que emana de um ambiente que se diz transformador, mas que muito se parece ou é até pior com a casa desses meninos na favela. Dentro dessas celas lotadas, as camas de material alvenaria são ou não preenchidas por colchões e cobertores, a água que escorre pelo chão, formando um ambiente de profunda tristeza e desespero. Ali não há espaço para esperança, só o ambiente tedioso, que longe das ruas, também está longe de um mundo com dignidade todos esses corpos, de maioria negros. É a ideia de tirar das ruas e jogar em um ambiente ainda mais separado da sociedade.

E em contraste e tudo isso, vemos constantemente os momentos de audiência, onde os meninos são colocados, alguns acompanhados dos pais ou não, com um advogado público. Vemos uma juíza que em posse da sua arrogância, repete algumas ideias populares por ai, mas que sob seus privilégios de branca, elite e estudada, talvez não consiga entender todas essas vulnerabilidades, afinal, nesse processo não há um psicólogo disponível. Dizer pra uma pessoa que vive violência em casa que "se ela estivesse em casa não teria acontecido" parece um tanto quanto cruel, ou ainda dizer "você não deveria ter tido filho se não pode alimentar" para uma adolescente que nitidamente não teve conhecimentos a respeito de processos contraceptivos parece perturbador.
E além de tudo isso, nessas audiências, entendemos a perturbação dos jovens que mal tem ensino fundamental completo em entender os termos jurídicos utilizados durante as audiências referidas. Os termos são tão fora da realidade que dá pra sentir a confusão com que cada um passa. Isso fica ainda mais evidente no ultimo caso, quando um desses meninos foge da casa de custódia sem entender que no outro dia ele seria libertado, e ele deixa claro "eu não entendia o que vocês estavam falando". Tudo isso faz pensar que os jovens são excluídos inclusive dos seus próprios processos.

Enfim, ao final, o documentário faz a gente ficar pensando como resolver a situação dos jovens na criminalidade?