Pinocchio

Pinocchio ★★★★★

Se Pinóquio disser “meu nariz vai crescer agora”, ou “eu estou mentindo”, seu nariz cresce?

Ah! A fantasia… tão maravilhosa és, que faz a alma mais pútrida voltar a estar imensamente imersa ao mundo fantástico que ela é, sendo, na grande maioria das ocasiões, levada de volta na maneira tão maravilhosamente infantil e nostálgica, por meio de cenas marcantes e memoráveis, que translucidam o sentimento mais verdadeiro que se pode haver às coisas materiais. Se há algo de bom na vida, és tu, fantasia! E se há algo de mau em tu, és somente o sentimento do fim.

Neste magnífico longa-metragem da década de 1940, mais especificamente, o segundo longa de animação da Disney, vemos uma adaptação infantil do livro sombrio e medonho do escritor italiano Carlo Collodi. Gepeto, o marceneiro solitário, o senhor de idade que o que mais deseja em sua vida, que logo acabará, é que sua obra-prima, um boneco de madeira denominado Pinóquio, seja um menino de verdade, um filho que nunca teve. Neste desejo honesto feito a uma estrela-cadente, uma fada vem de encontro ao mundo terrestre, concedendo o pedido do velho Gepeto. A presença ilustre de um camaradinha ajuda imensamente na trama a dar um movimento cômico de dar gosto, o até então esfarrapado Grilo Falante, sendo tão irônico e, ao mesmo tempo, tão elegante e eloquente ao ponto de se comunicar com o espectador de maneira sublime. Um personagem tão importante, o Grilo, ao guiar Pinóquio, sendo o primeiro personagem de animação a falar diretamente com o público.

As lágrimas durante o início da obra são verdadeiras, pois não há nada de tão desolador do que um sentimento de perda de algo que nunca teve. Lembro de cada elemento prendido a esta cena como lembro de cada fala demonstrada no longa. Lembro até mesmo do som de cada um dos relógios, alguns irritantes, por sinal, do velho senhor Gepeto. A cena inicial, aliás, da vila de Gepeto, se dá como a cena mais cara do filme — custando míseros 25 mil dólares em míseros 30 segundos — e não é por menos. Seus cenários visuais exuberantes e suas trilhas sonoras primorosas — dispondo, inclusive, de cerca de 180 músicos —, evidencia o demasiado cuidado com o filme, por parte dos produtores, e, ainda, juntando um orçamento absurdo para época (visto que é posterior à Grande Depressão dos Estados Unidos).

— Consciência é aquela voz calma e baixinha que ninguém quer ouvir.

Indo para um momento mais oportuno, a partir do momento em que Pinóquio conhece sua Consciência (que, aliás, dá leque para uma série de metáforas) que, por sinal, é justamente após ele tomar consciência de si. Nos momentos em diante, dada a responsabilidade ao Grilo, de maneira inusitada, de guiar o menino ao bom ou ao mau caminho. Simples a trama se faz por realmente ser, mas de maneira alguma se faz simplória, sendo esta a magia, o cerne da obra: as mentiras. Com uma frase tão real e impactante, a Fada Azul desaparece ao dizer: “agora lembre-se, Pinóquio, seja um bom menino e sempre deixe sua consciência ser o seu guia…”. Nada mau, ein?

Servindo como um professor, ou melhor dizendo, um guia, Grilo demonstra ao menino que “o mundo é cheio de tentações — coisas erradas que parecem certas na ocasião, mas embora as coisas certas pareçam erradas, às vezes…” é…, talvez ele não seja um mentor tão hábil com as definições. Porém, sempre que precisardes, assobie! “Tente um assobio… e as coisas vão por certo melhorar…”. Ah! Sim, a música… que refaz, juntamente com o visual, a magia grandiosa de uma melodia simples. E Pinóquio, tão ingênuo… a começar pelos seus intermináveis “porquês” que, na vida de um menino de verdade, se fazem presentes. A vontade de querer descobrir o novíssimo, de maravilhar-se em meio ao mundo dos “porquês” e, mais precisamente, da infância. Então “amanhã você tem que ir para a escola…”, e por quê? Oras, porque sim… Nada melhor do que discorrer sobre uma obra infantil por meio de suas lembranças infantis. Lembro que, nesta meia parte, entrei em eterno fascínio por um personagem tão carismático como é Fígaro, o gato. Tão hilariante é seu jeito humanamente emburrado. Deve ser bom mesmo ser criança…

— Por que um ator precisa de consciência, afinal?

Parece que todo filme de animação da Disney necessita de pelo menos um vilão marcante em sua trama e, bem…, Pinóquio com certeza é marcante, então só lhe resta um vilão marcante, não é? Agora… parece que cinco antagonistas em uma mesma trama são tão suficientemente enraizados dentro desta animação que parece que nem se faz notório esta quantidade dentro dela. Acho que isso é bom, apesar do mau.

Primeiramente, em seu primeiro dia de escola, Pinóquio, ao tentar se direcionar rumo ao caminho dos bonzinhos, se demorara com uma dupla inusitada – feito gato, feito raposa. O nome “João Honesto”, que pode até nem ser bem assim no idioma original, translucida bem esse humor, quase que cínico, de demonstrar às crianças o mal que há no mal. Claro que apenas dois capangas estelionatários são pouca coisa dentro deste universo criado pela animação, porém, é claro, são uns dos mais marcantes dos antagonistas da mesma por justamente serem tão esdrúxulos e estereotipados como simples idiotas (e talvez Gideão seja o mais matraqueado deles dois). A escola, onde meninos de verdade vão, “fonte da educação e do caminho do bem”. “O alegre riso das criancinhas a caminho da escola, sedentas cabecinhas correndo para a fonte do saber, hahaha… escola, uma nobre instituição, o que seria deste mundo estúpido sem ela?”

— Bem, lá vai ele… sentado no colo da glória, o mundo a seus pés.

Pinóquio, ludibriado pela dupla de ladrões boçais inteligentíssimos, acaba de encontro com o velho cigano, Stromboli. Aqui há um personagem, remetendo-se ao esteriótipo de mexicano salafrário, juntamente com sua mentalidade ultra capitalista, que deixa em evidência a influência do imperialismo europeu aos povos latinos. O dono do teatro de marionetes cruel, prendendo o pobre coitado e inocente, menino de pau, em cárcere privado. Havendo, ainda, neste ápice, uma das cenas mais marcantes da cultura popular: “não há cordões em mim”, e talvez exista uma metodologia filosófica para lidar com esta frase…

— Menino que quer ser mau, não passará de menino de pau.

O boneco que caiu na rede, agora cai em um ninho de cobras. Deliberado à Ilha dos Prazeres“o paraíso dos meninos despreocupados, onde todos os dias são feriados” —, cujo proprietário é o inescrupuloso Cocheiro, Pinóquio conhece um garoto rebelde: Espoleto. Ali, na Ilha dos Prazeres, bebem, fumam, jogam sinuca e tudo que é disponível no local, afinal, seguindo a ideia de Espoleto: “a gente só vive uma vez”. Sendo esta uma boa história sobre ensinamentos morais, dados através do medo e do assombro, com o ar medonho da Ilha, aonde vão todos os “meninos burrinhos, os desobedientes”; “ser mal-criado é divertido não é?” Deve ser, realmente..., mas saiba que “você fez a sua cama, agora durma nela…”. Aproveite a felicidade enquanto pode, pois, ela passa rápido: “dê bastante corda a um menino, que ele logo se marra como se fosse um burro.” Curioso é que depois não vemos mais o que se deu a Espoleto e os outros meninos…

Pergunta: João Honesto, Gideão, Stromboli e o Cocheiro seriam presos pelos maus causados a Pinóquio uma vez que ele não era um menino de verdade (a não ser a punição de danos materiais ao Gepeto)?

Por fim chegamos ao último e derradeiro antagonista desta bela trama, a “Baleia das Baleias”, a destruidora de navios, a colossal Monstra. Para restaurar sua felicidade e redimir suas mentiras para tornar realidade seu desejo de virar um menino de verdade, Pinóquio fora então enfrentar o monstro dos mares. Esta baleia que dava medo nas crianças como eu, esta amedrontadora e fascinante criatura que mo fez interessar em um livro desconhecido sobre uma certa baleia branca cujas páginas ainda não as li. Assim como me ocorreu com a Malévola, em forma de dragão, em Bela Adormecida, ou o Demônio, de Fantasia, em Pinóquio, o medo da baleia colossal foi o mesmo — se não maior. A animação detalhista, deixando-a maravilhosamente assustadora, por meio de técnicas de assombro por meio da expectativa em ver a Monstra, demonstram o enorme empenho que se teve ao produzir este belo filme, neste mundo cruel onde um homem surgiu do nada até tornar-se o cofundador de algo maior como a The Walt Disney Company.

Em sua época, chocando o público, mesmo sendo uma adaptação infantil, Pinóquio foi um grande sucesso de crítica. Tanto foi esse sucesso que o filme foi vencedor de dois prêmios Óscar, com a música “When You Wish Upon a Star”, cantada por Cliff Edwards, e melhor trilha - sendo o primeiro longa da empresa a ganhar um prêmio competitivo.
O filme também foi o primeiro a utilizar a câmera multiplano, usada para dar maior profundidade à animação, e deixando-a tridimensional, nos transportando adentro do filme. Walt Disney, visto sua enorme empolgação pessoal pelo longa, tinha a esperança de que o filme iria fazer um enorme sucesso de público, até mais que Branca de Neve — devido aos seus efeitos especiais pioneiros, uma história muito mais bem desenvolvida e seu processo superior de animação —, no entanto, não foi bem assim. Poucos meses antes de sua estreia, iniciou-se, no ano de 1939, um dos maiores conflitos globais da história: a Segunda Guerra Mundial. Isso fez com que a distribuição do filme não fosse possível nos demais continentes, um visível fracasso bilhetérico, sendo necessárias, futuramente, alguns relançamentos do longa para que ele se tornasse o sucesso que é hoje. De parte disso, eu e Walt Disney aparentemente temos uma coisa em comum: gostamos muito de Fígaro, o gato (que foi posteriormente usado como animal doméstico da Minnie, a camundongo).

— Se você provar que é valente, honesto e generoso, um dia será um menino de verdade.

Esta belíssima obra mostra que é possível correr atrás dos seus sonhos, amadurecer, e viver a vida aprendendo com os erros. Isso me faz pensar que, desde o início, Pinóquio, o menino de pau, mentiroso, era, desde lá até cá, um menino de verdade por justamente fazer o que meninos fazem: mentir, brincar e viver plenamente a infância.

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