The Girl Next Door

The Girl Next Door ★★★★

Resgate a pureza do amor: Notas sobre Show de Vizinha (2004)

A indústria cinematográfica Hollywodiana sempre que enxerga uma fonte de sucesso, acaba usando todas as possibilidades da fórmula até que a mesma seja esgotada por completo e nada mais seja feito a respeito dela, sendo esquecida como uma fase de intensa exploração que fica no passado, volta e meia sendo revivida, mas nunca com o mesmo impacto que sua “febre”.

Um bom exemplo são os filmes de Slasher que tiveram o seu ápice na década de 1980 e foram esquecidos posteriormente, sendo revividos vez ou outra. E outro destaque curioso são as comédias “besteirois” adolescentes, uma espécie de subgênero nascido por volta do final dos anos 70 e durante os ano 80, alcançando seu ápice com o megahit American Pie, lançado no ano de 1999, servindo como um retrato de uma geração inteira em sua inicialização na vida sexual. Após o estouro do trabalho de Chris e Paul Weitz, uma série de outros projetos foram feitos sobre a base de adolescentes adentrando o mundo do sexo e, entre eles, um pequeno exemplar acaba ganhando destaque sutil, no caso, Show de Vizinha, dirigido por Luke Greenfield e lançado no ano de 2004.

De certo modo, o filme de Greenfield acaba se encaixando nos “moldes” desse tipo de produção: narrava a história do jovem Matthew Kidman (Emile Hirsch) e as consequências de sua vida quando se apaixona pela estonteante Danielle (Elisha Cuthbert), em especial, no momento que descobre que sua paixão era uma estrela da indústria pornográfica. Basicamente, pela base, a história aparenta apelar de forma sexista para os dispositivos mais básicos desse subgênero do besteirol, desde as piadas sobre sexo mais simples e pouco criativas até rir da inocência de seus personagens, em especial, do protagonista, um adolescente puro, desajeitado, inteligente e retraído, incapaz sequer de abrir uma revista masculina, deixando-a em sua gaveta.

Contudo, Greenfield se revela um passo a frente do público-alvo ao fazer de sua obra acessível para os dois nichos: tanto aqueles que pouco se importam com os assuntos delicados da obra e querem apenas chegar nos momentos de humor escatológico sexual e aqueles que riem das inúmeras - e criativas - saídas cômicas, mas sem desconsiderar que, no cerne de seu apelo de nicho, The Girl Next Door esconde muito mais do que somente “mais um besteirol americano”, por assim dizer.

A começar por seu protagonista: Matthew é a representação de tudo que não se encaixa em um molde masculino puramente sexista, sendo esguio, tímido, retraído, exalando pouca confiança em si mesmo e lidando com a insegurança de ser somente um esteriótipo do “nerd”. Basicamente, o arco do personagem de Emile Hirsch é de constante confronto aos tipos de masculinidade criados pelas estruturas do patriarcalismo, do produtor insano que destroça a pureza de adolescentes, tirando as mesmas de sua juventude e jogando-as na indústria pornô, explorando seus corpos de maneira desumana, como meros objetos de atração sexual, como estrelas, de fato, os “chamarizes” para adolescentes sexualmente sedentos por desbravar tal mundo aos próprios jovens criados em uma sociedade de padrões patriarcais, onde homens precisam seguir um manual de comportamento para validar a sua masculinidade, mas que são escudos frágeis para esconder sua segurança. E nesse ponto, é excelente como Greenfield trabalha ao lado de Timothy Olyphant e Christopher Marquete para fazer, respectivamente, Kelly e Eli de representações desses dois arquétipos negativos do “ser homem”

(E, Marquete em especial, já que é a representação do adolescente que sempre almeja essa masculinidade, mas jamais é capaz de tomar uma decisão clara em sua vida sexual, jamais consegue ser ativo, usando o arquétipo como uma forma de omitir sua insegurança com o sexo feminino e, ao final, se tornando, em síntese, o que Kelly se tornou: um homem que usa o “seja homem” para ocultar uma insegurança jamais resolvida).

Contudo, Matthew tem uma “fibra moral” que faz ele compreender quem realmente quer ser. E ela tem nome: Danielle Clark. A jovem é o ponto de virada na sua vida, que o faz arriscar seu futuro para ir em Las Vegas e lembrar a sua amada que ela não pertence aquele mundo. Mas o acerto de Greenfield é fazer de Danielle mais do que apenas o ponto de virada na jornada de autodescoberta, já que a relação do casal se baseia em uma troca mútua, onde Danielle enxerga naquele adolescente abobalhado, introspectivo, delicado e amável uma chance de redenção, de recomeço, tal como Matt vê na belíssima vizinha que valoriza a sua presença algo que jamais teve, um romance belo e puro.

A base da dinâmica Danielle/Matt é a pureza e doçura dos pequenos momentos que compartilham, das situações que desfrutam juntos, das aventuras que vivem e, em especial, dos olhares que trocam. E o momento decisivo é aquele que Matt descobre a verdade sobre sua amada, que reside no fato dela ter sido uma vítima da indústria pornô (e não reluto em classificar como “vítima”).

O jovem acaba perdendo completamente o que faz do romance entre ambos poderoso: a pureza, a inocência de cada olhar. E o ápice é a sequência do motel: intercalada com as (terríveis) dicas oferecidas por Eli, vemos Matthew renegando completamente a pureza por acreditar em algo que é uma mera fantasia (que Danielle é facilmente suscetível ao sexo). Danielle percebeu tudo a partir da chegada ao motel e acaba por provocar a insegurança sexual de Matt, por perturbar a pureza que ainda existe no rapaz, mas que é omitida pelo desejo lascivo de uma fantasia sexual que se instalou em sua mente ao ver Danielle em uma fita pornô encontrada por Eli, algo que é evidenciado em uma troca de diálogos onde o lado puro do personagem de Hirsch pergunta:

- Por que está fazendo isso?

Ao qual Danielle responde com:

- Não é isso que você quer? Foder uma estrela pornô em um quarto de motel barato? É isso que pensa de mim.

Ao desenterrar o passado de Danielle, Matt acaba por reviver feridas marcantes de abusos por parte de uma empresa que não vê humanos, mas meros objetos de desejo sexual que serão contemplados por jovens virgens escondidos dos pais. De certa maneira, Greenfield critica a natureza do espectador que está vendo aquilo, do nicho que consome o cinema de besteirol apenas com o intuito de se excitar com a exploração sexista de corpos femininos, tanto dentro do subgênero como na indústria da pornografia, algo que se revela ainda mais nocivo, já que é explícito e, com algumas liberdades, real.

Mais do que apenas enxergar Danielle como uma imagem que a jovem almeja desassociar, Matt resgata lembranças que a moça quer enterrar na pureza que enxergava no relacionamento com o adolescente, resultando na frase mais dramaticamente arrebatadora da sequência, onde Greenfield aproxima a câmera do rosto em prantos contidos de Elisha Cuthbert e registra o momento que Danielle diz:

- Porque eu amei o jeito que você olhou pra mim.

Danielle é uma personagem igualmente complexa, uma jovem que teve seu corpo violado por uma cultura que almeja objetificar os corpos oleosos de suas atrizes em cenas que vendem uma ideia errada do que é sexo, uma mulher que enxerga na pureza do primeiro olhar abobalhado de um jovem suburbano a pureza de um adolescente apaixonado a primeira vista. Que vê na doçura que ele a trata um refúgio, uma esperança e que se desaponta ao acreditar que sua inocência foi corrompida a partir do momento que descobriu a verdade sobre seu passado.

E nesse sentido, Elisha Cuthbert é uma força da natureza ao expressar em olhares discretos, em detalhes faciais sutis, emoções poderosas que Greenfield faz questão de reforçar ao inserir close-ups no seu rosto que capturam a felicidade, a sedução, a doçura e a inocência de uma jovem que apenas quer recuperar o que lhe foi tirado: sua juventude. E Matthew sabe tão bem disso que protagoniza a declaração de amor mais sutil e doce do século, na qual entrega o desenho que Danielle fez na noite em que se conheceram e fala:

- Eu só quero que saiba, eu sei quem você realmente é, e você é melhor que isso.

Se Show de Vizinha começa como mais um exemplar do subgênero da comédia besteirol, logo Luke Greenfield faz questão de distorcer isso ao criar uma obra que expõe os males de uma indústria que explora mulheres de maneira desumana e sexualmente inferiorizada, que trata jovens moças como objetos e que destrói a vida de milhares de mulheres, evidencia o quão nocivo é esse produto comercial para homens e, em especial, jovens que crescem com percepções e moldes patriarcais e sexistas e uma eterna, bela e doce ode ao amor puro, ao romance inocente, da ingenuidade adorável que reside no ato de amar.

E se outros besteirois filmariam a sequência de sexo do protagonista de modo exagerado, ridicularizado ou problemático, aqui ela acontece da maneira mais bela e sutil, focando nos rostos de seus personagens em êxtase durante o ato e banhados pelo delicado tom de azulado na fotografia.

O sexo de Matthew e Danielle não é corpo pelo corpo, mas a consumação definitiva do amor que sentem um pelo outro. O laço físico que reforça o que sentem internamente um pelo outro.

- Obrigada

- Por quê?

- Eu nunca fui a um baile.

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